2015, o ano da Intolerância.

Parecemos ir sempre do oito ao oitenta. Este comportamento ditatorial, autoritário e maniqueísta, esse modo de ser “comigo ou contra mim” invadiu nossas vidas. Parece ter chegado para ficar. E, honrando um verdadeiro “Ensaio sobre a Cegueira”, como o de Saramago, podemos identificar de longe o mau comportamento dos outros, mas nunca o nosso mesmo.
Se eu sou da esquerda socialista sou um anjo de altruísmo e quero o melhor para a sociedade, desde que a sociedade não contenha gente rica, pois esses são demônios egoístas que merecem padecer eternamente por seus pecados do consumo e sua conivência com o capital internacional, sujo, globalizado, opressor.

Se sou da direta democática sou o bastião da retidão, honestidade, ética, moral e dos bons costumes, quaisquer que sejam eles, a família. Suas conquistas em primeiro lugar, mas só as famílias que eu creio serem famílias, com todos os preceitos morais ou religiosos que eu escolho aplicar à vida dos outros para classificar-los em “bons” ou “maus”.

Se sou heterossexual, casado, com filhos, tenho uma família “normal”, não estou destoando da média, não escolhi uma vida diferente, então, por que preciso aceitar que outras pessoas possam enxergar outras possibilidades de viver? Ora, eu estou com a maioria, estamos certos, somos os “normais”, por que querm nos enfiar “goela abaixo” esses valores imorais e anormais dessa gente diferente? Não sou obrigado a ver isso  muito menos explicar para os meus filhos do que se trata. Melhor eles não terem contato com gentes diferentes ou eles também poderão ousar ser diferentes, anormais. 

Se sou homossexual, sou livre e estou exercendo meu direito à vida ue para mim é natural. Não quero que me considerem “anormal”, sou só diferente. Mas na maior parte das vezes sou um incompreendido, estão todos contra mim. Esses comerciais são machistas e só querem me fazer me sentir mal, são homofóbicos e misóginos.

Se sou homem, sou capacho, servil, submetido à sociedade, não devo ser machista, não posso ser viado. Se sou mulher, sou vítima da sociedade machista. Se sou branco, sou o demônio encarnado em capataz. Se sou negro, sou vítima da sociedade escravocrata. Se sou muçulmano, sou terrorista, se sou evangélico sou ignorante, se sou católico sou incoerente. Se sou ateu sou satanista. 

E assim seguimos. Vocês entendem os exemplos, não? Vivemos num mundo polarizado, com os ânimos à flor da pele, com sentimentos potencializados pelas mídias sociais.

Somos homens contra mulheres, brancos contra negros, ocidentais contra orientais, gays contra héteros, PTistas contra PSDBistas, comunistas contra reacionários, cristãos contra judeus contra muçulmanos contra ateus, parece que nossa vida sempre se resume a uma constante luta do “bem” contra o “mal”.

O problema é que assim estamos sempre demonizando um”lado” e santificando o outro. Ignoramos nuances e variações. Não analisamos opiniões, fatos e argumentos e sim posições. Compartimentalizamos a vida, colocamos as pessoas em gavetinhas com etiquetinhas e quem não tem gaveta tem que se encaixar em algum lado. E não damos às pessoas e a nós mesmos a possibilidade de um meio-termo. E nem a possibilidade de mudar de ideia. 

E quem é “bom” ou “mau”? E quem está certo ou errado? Primeiramente, devemos perceber que estes tipos descritos são só aqueles histriônicos que aparecem nas mídias mais para satisfazer o próprio ego do que para qualquer outra coisa. Em segundo lugar, devemos admitir a hipótese de que ninguém é de todo “bom”, “mau”, “certo” ou “errado”. Somos milhões de combinações. Para desgosto de nossos pais, nascemos para levar nossas próprias vidas, com nossos próprios pensamentos, opiniões, erros e acertos, nosso próprio cérebro criativo criando, em vez de simplesmente “continuar” as vidas daqueles que nos geraram e que indubitavelmente se sentirão traídos pelas falsas ideias de continuidade que tinham ao optarem por ter filhos.

A maioria de nós está nos meios-termos. Às vezes somos radicais em uma ou outra opiniões isoladas, mas essa não é a regra e sim a exceção. Infelizmente alguns de nós sucumbem ao comportamento de manada, o comportamento de turba insandecida, e acabamos repetindo mantras que nos polarizam cada vez mais, nos aproximando de radicais com os quais não nos identificamos.

Contra os teóricos da heterofobia, da PeTralhada, da Elite Branca Raivosa, dos Reaças, enfim, contra os criadores das caixinhas, gavetinhas e etiquetinhas que tornaram 2015 o ano da intolerância, proponho uma nova ordem nacional. Proponho uma aliança de pensamentos. Proponho o desabrochar dos analistas, dos pareceres, dos estudos, das opiniões. E proponho que analisemos nossos erros e acertos e que nos permitamos mudar de ideia quando descobrimos que nossas ideias antigas não mais nos representam.

Sejamos intolerantes apenas com a intolerância. Que venha 2016, e que seja o ano nacional da tolerância.

 

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